Ao ouvir duas ou
mais pessoas discutindo sobre o bolsa-família, é normal ouvir frases do tipo
“Agora com esse bolsa família ninguém mais quer trabalhar”, ou “o governo tira
dinheiro do trabalhador para sustentar vagabundo”, ou “isso é uma
bolsa-esmola”. Muitas dessas frases são simplesmente repetidas pelas pessoas
sem que elas reflitam ao menos um pouco sobre o que estão dizendo.
A maioria das
pessoas sequer tem noção de quanto é o valor do bolsa família. É um valor
baixíssimo que depende da renda da família, da quantidade de filhos e de outros
fatores. Para você ter uma ideia do quanto esse valor é baixo, uma família que
ganhe menos de 70 reais por pessoa e que tenha 2 filhos receberá apenas 134
reais por mês. Você acha que alguém vai deixar de trabalhar porque vai receber
134 reais do governo?
Muitos pensam que
as famílias que têm muitos filhos recebem muito dinheiro. Não poderiam estar
mais enganados. Para receber 268 reais, é necessário que a família tenha renda
de menos de 70 reais por pessoa e tenha 5 filhos. O valor máximo do bolsa
família chega a 306 reais, atendendo a outras condições adicionais.
Essa história em
que os beneficiários do bolsa família não querem mais trabalhar entra em total
conflito com o fato de que estamos hoje com as menores taxas de desemprego da
história brasileira. Fechamos outubro com uma taxa de 5,2% de desemprego. Só
para efeito de comparação, o desemprego na Alemanha hoje é de 6,5%, nos EUA é
de 7,3% e na França 10,9%. Portanto esse argumento é muito falho e não há nada
que o justifique.
Outra fala comum
que se ouve é que aqueles que recebem o bolsa-família ficam dependentes desse
dinheiro e jamais vão se esforçar para melhorar de vida. Esse é mais um engano
de quem se informa muito pouco sobre o assunto. Entre outubro de 2003 e
fevereiro de 2013, cerca de 1,69 milhão de famílias abriram mão voluntariamente
do bolsa família após terem sua renda aumentada e não precisarem mais do
benefício.
O bolsa família é
um programa emergencial que visa garantir uma renda mínima que ao menos permita
que uma família muito pobre tenha sua condição de pobreza aliviada, até que os
membros dessa família consigam empregos que permitam que ela caminhe com as
próprias pernas. O bolsa família é imprescindível enquanto a família está na
miséria. O valor recebido é bem baixo, mas faz uma diferença muito grande para
os que se encontram nessas condições.
Para ter o
benefício do bolsa-família também é necessário manter os filhos na escola com
frequência entre 75% e 85%, os menores de 7 anos vacinados, além de outras
condições. A permanência dos filhos na escola é fundamental para possibilitar
que eles tenham um futuro melhor que os seus pais. Esse é mais um ponto
positivo para o bolsa família, mas ainda precisamos que os governos invistam
muito mais na educação pública básica, pois estamos longe de termos uma escola
de qualidade para essas crianças e adolescentes.
Por outro lado,
também existem os mitos criados pelos governos Lula e Dilma sobre a eficácia do
bolsa família na eliminação da miséria. Recentemente houve a cerimônia de
comemoração pelos 10 anos do bolsa família, em 30 de outubro. Nesse evento o
governo afirmou que o programa teria retirado 36 milhões de pessoas da miséria.
Isso é um grande absurdo.
Hoje o índice
utilizado pelo governo para classificar uma família como “miserável” é o da
renda equivalente a 70 reais por pessoa, um índice baixíssimo. Com base nisso,
se uma família de 5 pessoas alcançar uma renda total igual a 351 reais, essa
família é considerada pelo governo como retirada da miséria. O pior é que esse
índice está defasado, pois não foi alterado desde junho de 2011.
O bolsa família é
um programa emergencial que retira as pessoas da miséria apenas tecnicamente.
Faz com que uma família que ganhava 50 reais por cabeça passe a ganhar, por
exemplo, 75 por pessoa, excluindo essa família das estatísticas de miséria, mas
na prática essa família continua vivendo na miséria.
Durante os
governos Lula e Dilma foram gerados mais de 10 milhões de empregos. Esses
empregos é que conseguiram retirar muita gente da miséria e não o bolsa
família. A partir de quando a família consegue sustentar-se por conta própria,
sem a ajuda do bolsa família, aí sim pode-se afirmar que aquela família foi
retirada da miséria.
É terrível que
Dilma e Lula usem os números da redução técnica da miséria como se fossem
indicadores de redução real dela. Isso cria uma ilusão. A miséria continua
existindo, mas como está fora dos indicadores estatísticos, muitos não têm
conhecimento da sua real dimensão, dificultando a solução do problema. Como
vamos pensar na solução de um problema que não existe?
Em maio deste ano,
o jornal Folha de São Paulo requisitou ao Ministério do Desenvolvimento Social
a informação de quantas famílias no país ganhavam menos que 77,5 reais, ou
seja, os 70 reais corrigidos pela inflação do período. O impressionante nos
dados revelados é que a quantidade de pessoas abaixo da linha da pobreza
passaria de 0 para 22 milhões de pessoas se o índice fosse corrigido. Com isso,
está explicado o motivo de o governo não reajustar o índice.
O episódio do
boato sobre o fim do bolsa família ocorrido neste ano nos mostrou o quanto o
programa é imprescindível e quantos dependem dele. Torcer pelo fim do
bolsa-família é o mesmo que torcer para que as pessoas que vivem hoje na
miséria passem a viver muito pior. O bolsa família deve ser mantido pelo tempo
que for necessário, mas é importante que continuemos cobrando do governo que
invista numa educação pública de qualidade, num bom tratamento de saúde nos
hospitais públicos, num transporte mais barato ou gratuito para os mais pobres,
que aumente a geração de empregos com carteira assinada, dentre outras coisas,
para que a vida de todas essas pessoas que ganham tão pouco possa melhorar e
que caminhemos rumo ao fim da miséria real e não apenas estatística.





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