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Porque não voto em BOLSONARO?

Caros amigos e amigas, 
Após longo período sem poder contribuir com textos reflexivos nesse blog, devido a uma série de eventualidades e compromissos profissionais e pessoais, retomo minhas atividades de produção textual para abrirmos debates e discussões sobre as mais variadas temáticas. Esta, de modo especial, configura-se no âmbito da política. Desde já, me coloco a disposição para futuros debates e trocas de ideias sobre os conteúdos que aqui abordar.

Depois de já ter sido indagado algumas vezes sobre meu posicionamento político e sobre em quem vou votar em 2018 para presidente da república e se votaria em Bolsonaro, resolvi escrever esse pequeno texto elencando algumas das principais RAZÕES do porque não votaria nesse candidato, caso ele se candidate.

A primeira e mais importante de todas: “Todo extremismo e/ou radicalismo é preocupante e deve ser rejeitado” o que me torna avidamente contra (no sentido de opinião) quem defende tal postura ou exerce tal prática. A história tem me ensinado que os extremismos e/ou radicalismos tendem a gerar atitudes drásticas e realidades autoritárias e opressoras, ainda que travestidas de “democracia”. Não parto de uma análise do ponto de vista do achismo, mas de minuciosas observações a comportamentos, falas e posicionamentos que sinalizam uma personalidade extremista/radical. Obviamente, o extremista/radical (consciente ou inconsciente) não defende essa prática como uma forma negativa, mas positiva e até necessária para se alcançar um BEM maior. Mas, no decorrer do percurso do estabelecimento de seu extremismo/radicalismo ele (ou ela, a pessoa que vê nessa atitude o meio de libertação) percebe que o poder que lhe foi dado em nome do tal BEM maior (pois ele entende que tem um ALVARÁ de ação por parte do povo) pode ser usado para outros fins que ele/ela, somente ele/ela, entende ser necessários. E pronto, criamos mais um monstro com o qual não saberemos lidar.

A segunda, que se divide em duas, seria o fato de que a suposta “campanha” do suposto “candidato” já está contaminada de um populismo e oportunismo. A história nos mostra, desde Vargas a Lula, que os políticos um tanto populistas tendem a conquistar cada vez mais a confiança do povo para se chegar ao poder e, uma vez lá, desvirtuam-se e despem-se de toda aquela caracterização de “a favor do povo” (ainda que continuem a alimentar a devoção popular com pequenas migalhas) e tornam-se tão elitistas quanto aqueles que tanto criticavam quando estavam no chamado “meio popular”. E o oportunista (ainda que demore), como bem disse Maquiavel ao se valer do conceito de fortuna, espera o momento certo, a oportunidade certa para chegar ao poder, pois sabe que, mais cedo ou mais tarde, o povo cansa, desanima, desconfia e se desespera com o que tem no momento e apela para um “algo” que caminha contra a chamada “maré” do que está estabelecido e promete ser uma mudança, ainda que essa mudança não seja exatamente a que esse povo espera no momento, mas para romper com o que se tem aceita até o que não tem (o fato de não ter propriedades para ser o que se almeja). É ai que surge o oportunista, aquele que usa do discurso “eu vou fazer diferente do que está aí!”, “o que tem aí é podre e ruim!”, “não vou permitir que essas coisas aconteçam mais!”, e ao chegar ao poder, não sei se porque antes era um ingênuo ou se é tão mau caráter e dissimulado que mentiu o tempo todo, o oportunista faz exatamente a mesma coisa (às vezes um pouco menos ou um pouco mais) daquele que já estava lá e que tanto criticou.

E uma terceira razão, e talvez a mais incompreendida, é o fato de que não se pode mudar os personagens se a peça/novela ainda é exatamente a mesma, ou seja, só teremos modificações nas expressões corporais e linguísticas, mas as cenas sempre serão as mesmas. Explico-me! Tanto o adepto da direita, como da esquerda ou do centro político não conseguem entender essa “razão” porque ele está completamente contaminado, imbuído, afetado pela paixão do que ele/ela “acredita” ser a melhor opção. Ele/Ela não entende uma política apartidária, uma humanidade que está acima do partido e o submete sem que por ele seja submetido. Entende que o partido e/ou pessoa é a “salvação” que se espera, ou seja, o partido e/ou indivíduo está acima da “virtude” e da essência humana que é a busca de um bem comum de todos e não dos seus coligados ou de seus interesses pessoais, quando na verdade o governante deveria ter intrínseco que a função para a qual foi eleito a exercer é um dedicar-se em prol do bem comum e de uma “causa” que transcende as incoerências humanas.

Neste sentido, o candidato a governante deve estar imbuído de um “temor” de que o que está assumindo é extremamente comprometedor (no sentido real da palavra) e o faça temer a não agir se não for com responsabilidade e coerência. Totalmente o contrário do nosso cenário político brasileiro atual. Os políticos não temem a responsabilidade do cargo, as consequências da ingerência, da corrupção, do descaso, eles têm consigo uma certeza tão clara de que não sofrerão punições, que não só operam seus desmandos como contaminam aqueles que ainda não o fazem. Não precisamos mudar personagens, precisamos mudar o roteiro, o cenário, a peça. E neste momento, você leitor, deve estar se perguntando: “como vamos fazer isso se já se tentou de tudo e nada muda?” ou “não é justamente por essa mudança que se recorre a opções como um Bolsonaro ou certos radicalismos?” ou “ainda que se consiga mudar uma ou outra coisa, esse mal sempre estará lá!”.

Num outro texto que escrevi nesse blog sugeri um conceito, que é um neologismo, que supõe uma prática – para não ficar somente no âmbito do pensar, pensar e nada acontece –, uma realidade política chamada de demosofocracia, a junção de três termos gregos: demos – povo, sophos­ – sábio e kratia­ – poder/governo. Ou seja, a realidade acima só muda quando o povo assumir seu papel de sábio – aquele que sabe o que é e o que faz, entende sua existência e seu poder – e governa os rumos da política. Podemos continuar com a democracia representativa, onde escolhemos alguém para nos representar no cenário político, mas, em hipótese alguma, esse povo sábio concordará que seu representante arrogue-se como autoridade máxima para decidir, por conta própria – como acontece aqui no Brasil e em vários lugares – se determinadas medidas “ruins” são necessárias, o que supõe, geralmente, um interesse de classes minoritárias e o benefício a oligarquias.

Outros podem pensar: “isso é utopia demais!”, “nunca vamos conseguir gerar uma população assim, sábia!”. Mas, ninguém disse que seria fácil ou imediato, tampouco que possa ser exatamente como se deseja. O processo é gradativo, às vezes lento, às vezes torna-se necessário o que chamo de “trauma político”, que conduz ao aprendizado político. Neste caso, cabe uma metáfora: quem em sã consciência acharia possível ou necessário o uso do pé para escrever, comer, tocar um instrumento quando se tem a mão que já está previamente adaptada a tal serviço? Ou seja, não tentamos algo extramente incomum, como a recusa a todos os candidatos que temos e ao sistema político que temos porque ainda há essa forma como a dita “ideal”. O trauma político trará ao povo uma ojeriza a tudo que está ai, exatamente e extremamente tudo, o fará recorrer a outros meios, que no momento, parecem inusitados. Esse trauma político parte de uma realidade de decepção, de rejeição total, de niilismo e desconstrução, ou seja, amputação das mãos – metaforicamente falando – para se recorrer aos pés. Precisamos entender que há outra forma de governo, a que não aceita qualquer tipo de governança, a que rejeita prontamente e imediatamente uma postura política indevida, venha ela de quem vier do partido que for da pessoa que for.

Alguns podem acreditar que uma pessoa como Bolsonaro possa ser esse mecanismo de mudança da política suja e corrupta que temos. No entanto, eu penso que ele seria, nesse caso, nada mais nada menos que mais um instrumento ou fase do “trauma político” necessário. Por entender que o povo ainda estará depositando uma atitude (responsabilidade política), que é sua obrigação, numa pessoa rotulada como “salvador”. O povo tem que entender que a pessoa “governante” é um funcionário que deve temer a demissão, caso trabalhe erroneamente. O povo tem que entender que um candidato deve ter bem claro que ele não é um “salvador”, ele é um prestador de serviços, e caso seus serviços não correspondam ao que se espera, procura-se outro servidor. É essa maturidade política que devemos almejar. Isso leva tempo, exige esforço e compromisso, e se essas condições não vierem por consciência, virão pela dor de um “trauma político”.

Podemos ser as pessoas que estão à frente dos que ainda pensam de forma partidária e ingênua. Podemos entender esse processo e esperar por sua efetivação, mas precisamos contagiar e ensinar o máximo de pessoas que pudermos, para que, quando o “trauma político” se efetivar elas lembrem-se que um dia já se ouviu falar sobre isso e de que chegou o momento de tomar as rédeas da direção, que é nossa, do coletivo, e não de um ou de alguns poucos. A massa (povão), ainda, só entende fatos e o presente, ela não consegue ler a história e, tampouco, compreender e prever situações futuras. Não por incapacidade ou fraqueza, mas porque ainda não teve acesso à informação e não entende a capacidade que tem de compreender o mundo ao seu redor. Além disso, a mídia, as multinacionais, os sistemas dominantes investem pesado para que essa massa (povão) continue no mínimo, no anonimato, na dependência. Enquanto não entendermos que há um sistema que nos manipula para sermos os “servos” da política ao invés de “senhores” não há salvador ou ideólogo que resolva os problemas que estão aí.


Professor Ivan Carlos Reis de Oliveira.

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